segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Cartas ao Tom - agosto 2012


Querido filho Tom


Esta é uma das poucas cartas que você ainda não vai conseguir ler inteira.
Você está aprendendo a ler.
Daqui a pouco o seu interesse pelo alfabeto e pelas palavras vai se transformar em interesse por autores específicos, por correntes de pensamento, vai apoiar esse ou aquele conjunto de idéias, vai se emocionar com o jeito cru do Rubem Fonseca, romântico do Vinícius, visceral do Alberto Caeiro, conciso do Haroldo de Campos ou verborrágico do Jorge Amado.
Quem serão os seus Nick Hornbys, Ian McEwans e os Jonathans Franzens de daqui a 10 anos? Serão os mesmos?
Você certamente terá a sua fase Jack Kerouac e assistirá, daqui a um tempo, o belo filme do Walter Salles.
Será que vai ler Virginia Wolf ou conhecerá uma bela garota na faculdade que vai te apresentar a ela?
O poder da leitura é realmente algo que liberta um ser humano.
Eu, sendo sua mãe, nunca mais vou poder pular parágrafos inteiros lendo um livro para você antes de dormir, por exemplo. Mesmo que eu esteja com todo o sono do mundo. Que pena, hahaha, faço isso tantas vezes.
Eu nunca mais vou poder editar uma história para te poupar de frases como “mandou matar a Branca de Neve tirando fora o seu coração”. Eu nunca te contei essa parte da história, filho, afinal de contas, quem lê o livro sou eu, eu posso ler do jeito que eu quiser e posso te poupar dessa morte tão absurda. Agora não mais. O poder da leitura será seu. Para o bem ou para o mal. Terei que tomar cuidado com os jornais e notícias tristes espalhados pela casa. E irei te apresentar os meus livros preferidos, meus poemas preferidos, minhas influências e as do seu pai.
Uma vez letrado, nunca mais você vai conseguir olhar para uma palavra sem decifrá-la. Mesmo em russo, filho, você vai ver, você vai tentar decifrar de alguma maneira.
Aliás você vai perceber que o sentimento genuíno de férias se dá quando a gente tira férias até mesmo da escrita. Estar num lugar com outro alfabeto é a sensação real de “nossa, estou longe, hein?”
Be-be-beeeem-vê-vi-viiiin-dê-ô-doo à bordo, filho querido.
Vamos nos divertir bastante nesse mundo cheio de coisas incríveis para ler.

Um beijo, Mamãe.

Cartas ao Tom - abril 2012


Querido filho Tom,


Esses dias você veio me perguntar “mamãe, quantos ossos tem o corpo humano?” 
“Sei lá”. Resposta de quem tem 38. 
“Olha no Ipad, mamãe”. Resposta de quem tem 5.
Vai começar a fase do dever de casa.
E as tarefas que você trará para casa não serão só suas, serão minhas também.
Vai ser interessante observar como você passará por isso com o google facilitando tudo. No meu tempo, eu tinha que pesquisar na empoeirada enciclopédia Barsa que minha mãe tinha em casa. E olha que meu tempo nem é tão longe assim. (E a nossa estante nem era tão empoeirada.)
Pedir uma pesquisa nos dias de hoje é um desafio para as escolas. Com o acesso fácil, escancarado, à informação, sobra mais tempo para a análise propriamente dita. E para as pesquisas erradas, claro. Como ter a certeza da fonte do que você lê na internet? Já que encontrar as respostas ficou infinitamente mais rápido, as perguntas devem ser melhor elaboradas. Um prato cheio para um curioso como você, meu filho.
Não vejo a hora de você começar a ler, quantas descobertas estão por vir. Você também parece não aguentar mais esperar. 
Engraçado como as vogais são as primeiras a serem reconhecidas. Você é capaz de escrever várias palavras com apenas as vogais dela, sem nenhuma consoante.
Enquanto você entra na fase do be-a-bá, a sua irmã, com apenas 6 meses, está na fase do abu-abu. Mesmo sabendo que ela é uma bebezinha que ainda não fala, você adora interagir e conversar com ela. Ela tem sorte e vai aprender tudo com você. Aliás, todós nós, filho, temos muito o que aprender com você.

Um beijo, Mamãe.

Cartas ao Tom - fevereiro 2012


Querido filho Tom,


Mamãe vai voltar ao trabalho.
Depois de quase 5 meses em casa por causa da licença maternidade da sua irmã, mamãe vai voltar a se despedir, pela manhã e à tarde, com a certeza de que vai voltar, horas depois, morrendo de saudades.
Você é grande, filho. Já passou por isso antes.
Você sabe que a mamãe volta.
As mães sempre voltam.
E seria tão mais fácil para nós, mamães que trabalhamos fora, se a gente pudesse ter um feedback de vocês. Algo como um “você está indo bem, mamãe, não se preocupe.” Ou um “não fique culpada, mamãe, eu me divirto em casa sem você”.
Parece loucura mas toda mãe pensa a mesma coisa. Que não existe nada mais gostoso do que abraçar e sentir o cheirinho de uma bebê de 5 meses. Que não existe nada mais divertido do que a companhia de um garoto esperto de 5 anos.
Mas sim, filho, existe vida longe das fraldas.
Posso falar por mim e espero que você e sua irmã, um dia, entendam.
Mesmo sendo o maior dilema das mães de hoje (das mães dos seus amiguinhos também) não somos menos mães se admitimos que trabalhar fora é prazeroso.
E não estamos menos presentes em casa por isso. Eu não estive.
Nos últimos 5 anos voltei para casa para almoçar com você.
Cheguei cedo sempre que pude para brincar com você.
Te levei ou busquei na escola quase todos os dias.
Sempre li um, dois ou três livros para você antes de dormir.
Contei muitas histórias, ouvi dezenas de outras.
Não fui uma mamãe tempo integral mas fui uma mamãe completa em todo tempo que estivemos juntos.
Vamos começar tudo de novo agora com a sua irmãzinha.
Se ela chorar, filho, fala para ela que a mamãe volta, tá?
E, sempre que eu não estiver em casa, cuida dela por mim.

Um beijo,
Mamãe.

Cartas ao Tom - janeiro 2012


Querida mamãe,


Eu tenho uma resolução de Ano Novo:
Este ano, em vez de escrever para o Papai Noel, eu quero escrever uma cartinha para o Papai do Céu.
Nela, eu pediria algumas coisinhas:
- Que as semanas tenham mais sábados e mais domingos do que segundas;
- Que eu treine bastante e melhore no futebol;
- Que eu continue na sala dos meus amigos na escola e que todo dia seja dia de trazer um deles em casa;
- Que os chocolates nasçam em árvores, menos os amargos;
- Que a minha irmã Estela cresça logo para brincar comigo.
- Que a hora do almoço seja invertida e que eu possa sempre começar pela sobremesa (um prato grande de banana com aveia e mel ou um bolo de chocolate) e, depois, só depois, comer um pouco de macarrão com azeite e queijo ralado;
- Que todo dia antes de dormir você ou o papai possam ler no mínimo 8 histórias;
- Que o Papai do Céu proteja todas as pessoas que existem no mundo, menos os piratas e os ladrões;
- Que eu nunca encontre um “oligonígena”;
- Que eu não veja mais crianças sem casa e sem mamãe e papai nas ruas;
- Que todo mundo goste de brincar e nunca de brigar;
- Que eu me torne um escultor ou cantor ou diretor de teatro do Rei leão;
Ah, já ia me esquecendo, eu também diria para o Papai do Céu: obrigado.
Um beijo,
Tom.

Nota da autora: que você aprenda a escrever este ano, meu querido Tom, porque a mamãe está doida para realmente receber uma carta sua.

Cartas ao Tom - dezembro 2011



Querido filho Tom,


Quantos livros você quer ler hoje de noite?
A pergunta é sempre sucedida de uma negociação: “7! Não, filho, 7 é muito! Amanhã você tem escola… Tá, mamãe, então 4…”
Fico feliz que você goste tanto de livros, filho. Desde bebê. Antes, os livros que habitavam o baldinho azul no pé da sua cama eram quase mini-binquedos, na verdade. Tinham texturas, abriam várias vezes, encaixavam partes, faziam barulhos. Eram livros que aguçavam o tato e a audição.
E ajudavam você a desenvolver um vocabulário maior do que baba, bola, aba.
Agora são outros os sentidos que os seus livros aguçam: a curiosidade, a imaginação.
Os dois livros do momento são livros de um amigo, o Lolo: “Super Empty” (a história de um super herói bem diferente) e Quem Soltou o Pum? (não, não é o que você está pensando, Pum é um cachorrinho chamado Pum, hahaha)
Voltando ao assunto… todo dia você pede para ler os mesmos livros, filho.
E dá risada exatamente nas mesmas partes.
E pede para que eu repita a mesma entonação na hora da leitura. E ri mais ainda.
Acho que a repetição, aos 5 anos, é o que ajuda você na compreensão da história. Porque, embora você conheça todos os trechos a ponto de me corrigir se leio algo errado, você sempre tem uma pergunta diferente à respeito do livro (ou algo que o livro tenha te lembrado) que você nunca tinha feito antes.
E muitas vezes, te pego repetindo, frases inteiras dos livros que a gente lê quando você brinca de faz de conta com seus bonecos.
Sua vontade de ler sozinho, com seus próprios olhos, também está aumentando.
Você já conhece as letras.
E outro dia você contou para o seu pai que o ponto de exclamação numa frase indicava que alguém estava falando aquela frase gritando.
Menino Maluquinho e Marcelo, Martelo, Marmelo também tiveram seus dias de glória aqui em casa.
E, eu, desde que você nasceu, digo que vou escrever a história de um menininho chamado Tom que usou órtese para consertar o pezinho quando nasceu e por isso virou um grande herói do skate e do snowboard.
5 anos já se passaram e até hoje ainda não escrevi.
Mas, pensando bem, essas cartas são uma maneira de escrever essa história, filho, só que em doses pequenas, em parcelas iguais, todo mês, do jeito que você gosta.

Um beijo,
Mamãe.

Cartas ao Tom - novembro 2011



Querido filho Tom,


Quando essa revista estiver nas bancas, sua irmãzinha Estela completará 1 mês.
Um grande feito para ela e uma mudança ainda maior na sua vida, né, filho?
Estela chegou no dia 8 de outubro e já foi fazendo você dividir o quarto, o armário, a babá, a vovó, a mamãe e o papai.
Sem nem te conhecer direito, ela chegou pedindo silêncio aos seus dinossauros.
Você ficou genuinamente feliz, eu sei, mas também teve febre, dor de ouvido, dor de garganta e quase quebrou o nariz.
Os amigos, pais há mais tempo de 2 ou mais filhos, dizem categóricos “é ciúmes”.
Claro que há a flecha preta do ciúme, como diria Caetano, mas eu acredito que há mais dúvida e incerteza aí do que realmente ciúmes…
Você ainda não sabe como é legal ter uma irmã.
Estela vai ser a princesa das suas histórias, vai imitar suas brincadeiras, te defender, ser a sua cúmplice, sua fiel escudeira.
Vai seguir seus passos mesmo antes de começar a andar.
Vai te olhar com olhos apaixonados e admirados de quem tem o garoto mais bacana da rua como irmão mais velho.
E você vai ensinar para ela a diferença entre Brachiossauro e Mamechissauro, vai cantar para ela “Hey Jude”, vai ter eternamente ajuda para construir tesouros, robôs e castelos de sucata, vai contar os segredos que só você sabe sobre como convencer mamãe e papai a fazerem exatamente o que vocês querem.
Ter um irmão, filho, é dividir um futuro.
Vocês vão brigar, claro, (seu tio Marcelo que o diga) mas espero que vocês, além de irmãos, sejam amigos, realmente amigos, mas isso, mamãe e papai só podem esperar e torcer para que aconteça, porque amizade não é algo definido pelo sobrenome.
Estela hoje chora, mama e dorme. Mas a mamãe não vê a hora de vê-la passeando com você de um lado para outro na carona de um cavalo-marinho ou um foguete rápido e brilhante.
Até lá, filho, pode ter certeza de que pelo menos uma coisa você não vai precisar dividir de jeito nenhum: esse espaço aqui é só seu e ponto final.

Um beijo,
Mamãe.

Cartas ao Tom - outubro 2011



Querido filho Tom,


Muitas vezes me pego refletindo sobre as divagações que você faz no alto dos seus 5 anos:
“Mamãe por que o tio Marcelo e a tia Mariana não se casam e têm um filho se eles já se encontraram e já se apaixonaram?”
Colocado dessa forma parece tão simples a decisão de casar e ter um filho. Por outro lado, você está certo, Tom, por que não haveria de ser simples quando o mais difícil já aconteceu que é existir o encontro por amor?
“Mamãe, a Nina e a Lalá querem casar comigo, aí, eu fiz uni-duni-tê, ganhou a Nina.”
Nós adultos é que complicamos tudo, ok, essa afirmação também parece simplista e certamente não estaria certa sob a ótica de uma criança.
O fato é que vocês, crianças, têm muito a nos ensinar com o jeito de avaliar os problemas. Quando um adulto analisa um fato o que avaliamos é mais do que o fato em si. Levamos em consideração o que as pessoas à nossa volta achariam sobre o fato, se estamos cumprindo regras pré-estabelecidas ou desafiando-as, enfim, nosso julgamento nunca é isento de fatores externos ao que a gente realmente sente.
Vocês, crianças, são mais honestas, mais diretas-ao-ponto. Vocês dizem na cara do amigo se gostam deles ou não. Se acham que eles são ruins no futebol ou não, se eles podem ir brincar em casa ou não. Assim, na lata.
Isso também pode machucar o amigo. E você, por mais que ainda não saiba nomear o que sente, já fica magoado quando vê que, sem querer, entristeceu alguém.
Isso é crescer, filho, e eu não me iludo, você está crescendo rápido.
Hoje você me diz “adolescente não é adulto, mamãe, adolescente é só uma criança grande.”
Que assim seja, filho.
Que você conserve essa sua pureza de raciocínio, sua curiosidade e entusiasmo de criança, mesmo quando um dia você gritar “mamãe” com a voz mais grossa e pelos no peito.

Um beijo,
Mamãe.