segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Cartas ao Tom - agosto 2011


Querido filho Tom,


Pede, por favor, para vovó ligar o skype que a mamãe quer falar com você.
Não sei se na sua vez de ser pai, filho, o teletransporte já será realidade mas o fato é que, hoje, usar o Skype quando a gente viaja para ligar para você toda hora (sempre com um wifi) é uma delícia.
Compartilhar fotos e acontecimentos em tempo real, então, nem se fala: “Olha como o Tom está vestido para a festa de São João”, “olha o que mamãe e papai estão fazendo agora”.
A saudade não diminui mas a culpa de estar fazendo uma viagem sem criança sim.
E isso já libera um peso extra em qualquer bagagem.
É tão curioso ver sua relação com a tecnologia, filho.
Computador lá em casa é sinônimo de muita coisa: joguinhos, fotos, filmes, desenhos antigos no youtube. Você já se acostumou, por exemplo, a usar o Skype para, de vez em quando, desenhar com o primo que mora na Nova Zelândia ou almoçar com a vovó em Salvador.
Mas o computador, ao mesmo tempo que aproxima, também atrapalha e mamãe pede desculpas por tantas vezes que já teve e, que certamente ainda vai ter, que trabalhar no fim de semana.
Um dia desses você falou: “mamãe, quando eu crescer, não quero ter computador. Perguntei: por que, filho?
Porque eu não quero trabalhar, eu quero é cantar!”
Opa, aí você esbarrou no meu passatempo preferido: imaginar o que você vai ser quando crescer.
São tantas as possibilidades, filho.
Nesse caso, por melhor que seja a tecnologia, eu e seu pai damos preferência aos estímulos mais analógicos do que os digitais.
As embalagens de suco, aveia e leite, por exemplo, são disputadas exaustivamente lá em casa. De um lado, eu, sempre tentando organizar o lixo reciclado, do outro, você, e suas esculturas de sucatas.
Agendas de brinde viram grandes cadernos de desenhos e até mesmo o álbum do Clube Penguim pode ser feito com papéis grampeados, recortes e cola. Muito melhor do que o comprado na banca.
Música está sempre presente (talvez por isso o seu desejo de cantar?)
E é muito bacana ver a evolução da sua compreensão de mundo.
De uns tempos para cá você passou a prestar atenção à letra das músicas do seu playlist de dormir. Quando você era bebê, ouvia os clássicos dos Stones, Beatles, Pink Floyd e outros, na versão pianinho, sem letra.
Hoje, quem te embala é o João Gilberto.
E é o João original mesmo, com o seu violão, suas letras, suas temáticas.
Um dia, diante de tamanha informação bem na hora que deveria ser um soninho tranquilo, você me pergunta:  “Mamãe, por que é que esse João Gilberto diz que cantando ele manda a tristeza embora? Ele precisa ficar triste para cantar?
Eu não.”
Eu também não, filho,  eu também canto quando estou feliz.

Um beijo, Mamãe.

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