Querido filho Tom,
Pede, por favor, para vovó ligar o skype que a mamãe quer
falar com você.
Não sei se na sua vez de ser pai, filho, o teletransporte já
será realidade mas o fato é que, hoje, usar o Skype quando a gente viaja para
ligar para você toda hora (sempre com um wifi) é uma delícia.
Compartilhar fotos e acontecimentos em tempo real, então,
nem se fala: “Olha como o Tom está vestido para a festa de São João”, “olha o
que mamãe e papai estão fazendo agora”.
A saudade não diminui mas a culpa de estar fazendo uma
viagem sem criança sim.
E isso já libera um peso extra em qualquer bagagem.
É tão curioso ver sua relação com a tecnologia, filho.
Computador lá em casa é sinônimo de muita coisa: joguinhos, fotos,
filmes, desenhos antigos no youtube. Você já se acostumou, por exemplo, a usar
o Skype para, de vez em quando, desenhar com o primo que mora na Nova Zelândia ou
almoçar com a vovó em Salvador.
Mas o computador, ao mesmo tempo que aproxima, também atrapalha
e mamãe pede desculpas por tantas vezes que já teve e, que certamente ainda vai
ter, que trabalhar no fim de semana.
Um dia desses você falou: “mamãe, quando eu crescer, não quero
ter computador. Perguntei: por que, filho?
Porque eu não quero trabalhar, eu quero é cantar!”
Opa, aí você esbarrou no meu passatempo preferido: imaginar
o que você vai ser quando crescer.
São tantas as possibilidades, filho.
Nesse caso, por melhor que seja a tecnologia, eu e seu pai
damos preferência aos estímulos mais analógicos do que os digitais.
As embalagens de suco, aveia e leite, por exemplo, são
disputadas exaustivamente lá em casa. De um lado, eu, sempre tentando organizar
o lixo reciclado, do outro, você, e suas esculturas de sucatas.
Agendas de brinde viram grandes cadernos de desenhos e até
mesmo o álbum do Clube Penguim pode ser feito com papéis grampeados, recortes e
cola. Muito melhor do que o comprado na banca.
Música está sempre presente (talvez por isso o seu desejo de
cantar?)
E é muito bacana ver a evolução da sua compreensão de mundo.
De uns tempos para cá você passou a prestar atenção à letra
das músicas do seu playlist de dormir. Quando você era bebê, ouvia os clássicos
dos Stones, Beatles, Pink Floyd e outros, na versão pianinho, sem letra.
Hoje, quem te embala é o João Gilberto.
E é o João original mesmo, com o seu violão, suas letras,
suas temáticas.
Um dia, diante de tamanha informação bem na hora que deveria
ser um soninho tranquilo, você me pergunta: “Mamãe, por que é que esse João Gilberto diz
que cantando ele manda a tristeza embora? Ele precisa ficar triste para cantar?
Eu não.”
Eu também não, filho,
eu também canto quando estou feliz.
Um beijo, Mamãe.
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