segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Cartas ao Tom - novembro 2010


Querido filho Tom,


Achei lindo o “oninho” que você fez de barro.
E, por favor, ninguém se atreva a corrijir a grafia da palavra “oninho”.
Oninho é ninho, fastiado é fantasiado e Plósul é o Pólo Sul.
Não são apenas palavras, são praticamente objetos, têm cheiro, como aquele seu travesseiro que a mamãe tem que levar sempre que a gente viaja.
“Oninho” é quase um portal para o bebê que ainda existe (lá atrás, escondido) dentro de você. E quero preservá-lo assim enquanto der ou, pelo menos, até alguma professora do primeiro ano aparecer.
Claro que alguns “miletones”, como os livros de pedagogia falam, são significativos para o desenvolvimento de uma criança: pular de um pé só, tirar a fralda, reconhecer as letras, saber contar de 1 a 10, a 20, a 100.
Mas nada se compara àquelas conquistas muito muito muito pessoais que só eu, você e papai sabemos quais são. Porque fazem parte da sua história. De mais ninguém.
Como no dia em que você se deu conta de quem realmente era a sua família e me pediu para desligar o Barney, lembra?
(nota da remetente: para quem não sabe, Barney é aquele dinossauro roxo que tem uma canção-tema que diz assim “eu amo você, você me ama, somos uma família feliz.”)
Eu perguntei “Desligar o Barney? Por que, filho?”
Você me respondeu na lata: “Ué, mamãe, porque eu não amo o Barney e eu não sou da família dele.”
Tem muito adulto por aí, filho, que deve ter atingido outros “milestones” na vida e talvez não tenha se atentado ao fato de que ele não é da família do Barney.
E quando você me pediu um irmão ou irmã.
Eu respondi: “Tá, vou chamar a cegonha.”
Ops, veio a resposta: “Não, mãe, cegonha é bicho e eu quero um irmão gente, que nem eu.”
Ou quando estávamos lendo uma história de tatus e havia um tatu que gostava muito de música e que dizia “Eu nasci para tocar”.
Sua colocação, naquele momento, me tirou preciosas horas de sono por dias e dias seguidos: “E você, mamãe, nasceu pra quê?”
Pois é, pensei, eu nasci para quê?
4 e 36 anos se confundem e eu já nem sei mais quem está aprendendo com quem.
Quer saber, filho?
Você pode estar certo. Ninho um dia pode virar oninho mesmo.
Até porque, no tempo em que eu tinha 4, ideia ainda era idéia.

Um beijo, mamãe.

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