segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Cartas ao Tom - agosto 2012


Querido filho Tom


Esta é uma das poucas cartas que você ainda não vai conseguir ler inteira.
Você está aprendendo a ler.
Daqui a pouco o seu interesse pelo alfabeto e pelas palavras vai se transformar em interesse por autores específicos, por correntes de pensamento, vai apoiar esse ou aquele conjunto de idéias, vai se emocionar com o jeito cru do Rubem Fonseca, romântico do Vinícius, visceral do Alberto Caeiro, conciso do Haroldo de Campos ou verborrágico do Jorge Amado.
Quem serão os seus Nick Hornbys, Ian McEwans e os Jonathans Franzens de daqui a 10 anos? Serão os mesmos?
Você certamente terá a sua fase Jack Kerouac e assistirá, daqui a um tempo, o belo filme do Walter Salles.
Será que vai ler Virginia Wolf ou conhecerá uma bela garota na faculdade que vai te apresentar a ela?
O poder da leitura é realmente algo que liberta um ser humano.
Eu, sendo sua mãe, nunca mais vou poder pular parágrafos inteiros lendo um livro para você antes de dormir, por exemplo. Mesmo que eu esteja com todo o sono do mundo. Que pena, hahaha, faço isso tantas vezes.
Eu nunca mais vou poder editar uma história para te poupar de frases como “mandou matar a Branca de Neve tirando fora o seu coração”. Eu nunca te contei essa parte da história, filho, afinal de contas, quem lê o livro sou eu, eu posso ler do jeito que eu quiser e posso te poupar dessa morte tão absurda. Agora não mais. O poder da leitura será seu. Para o bem ou para o mal. Terei que tomar cuidado com os jornais e notícias tristes espalhados pela casa. E irei te apresentar os meus livros preferidos, meus poemas preferidos, minhas influências e as do seu pai.
Uma vez letrado, nunca mais você vai conseguir olhar para uma palavra sem decifrá-la. Mesmo em russo, filho, você vai ver, você vai tentar decifrar de alguma maneira.
Aliás você vai perceber que o sentimento genuíno de férias se dá quando a gente tira férias até mesmo da escrita. Estar num lugar com outro alfabeto é a sensação real de “nossa, estou longe, hein?”
Be-be-beeeem-vê-vi-viiiin-dê-ô-doo à bordo, filho querido.
Vamos nos divertir bastante nesse mundo cheio de coisas incríveis para ler.

Um beijo, Mamãe.

Cartas ao Tom - abril 2012


Querido filho Tom,


Esses dias você veio me perguntar “mamãe, quantos ossos tem o corpo humano?” 
“Sei lá”. Resposta de quem tem 38. 
“Olha no Ipad, mamãe”. Resposta de quem tem 5.
Vai começar a fase do dever de casa.
E as tarefas que você trará para casa não serão só suas, serão minhas também.
Vai ser interessante observar como você passará por isso com o google facilitando tudo. No meu tempo, eu tinha que pesquisar na empoeirada enciclopédia Barsa que minha mãe tinha em casa. E olha que meu tempo nem é tão longe assim. (E a nossa estante nem era tão empoeirada.)
Pedir uma pesquisa nos dias de hoje é um desafio para as escolas. Com o acesso fácil, escancarado, à informação, sobra mais tempo para a análise propriamente dita. E para as pesquisas erradas, claro. Como ter a certeza da fonte do que você lê na internet? Já que encontrar as respostas ficou infinitamente mais rápido, as perguntas devem ser melhor elaboradas. Um prato cheio para um curioso como você, meu filho.
Não vejo a hora de você começar a ler, quantas descobertas estão por vir. Você também parece não aguentar mais esperar. 
Engraçado como as vogais são as primeiras a serem reconhecidas. Você é capaz de escrever várias palavras com apenas as vogais dela, sem nenhuma consoante.
Enquanto você entra na fase do be-a-bá, a sua irmã, com apenas 6 meses, está na fase do abu-abu. Mesmo sabendo que ela é uma bebezinha que ainda não fala, você adora interagir e conversar com ela. Ela tem sorte e vai aprender tudo com você. Aliás, todós nós, filho, temos muito o que aprender com você.

Um beijo, Mamãe.

Cartas ao Tom - fevereiro 2012


Querido filho Tom,


Mamãe vai voltar ao trabalho.
Depois de quase 5 meses em casa por causa da licença maternidade da sua irmã, mamãe vai voltar a se despedir, pela manhã e à tarde, com a certeza de que vai voltar, horas depois, morrendo de saudades.
Você é grande, filho. Já passou por isso antes.
Você sabe que a mamãe volta.
As mães sempre voltam.
E seria tão mais fácil para nós, mamães que trabalhamos fora, se a gente pudesse ter um feedback de vocês. Algo como um “você está indo bem, mamãe, não se preocupe.” Ou um “não fique culpada, mamãe, eu me divirto em casa sem você”.
Parece loucura mas toda mãe pensa a mesma coisa. Que não existe nada mais gostoso do que abraçar e sentir o cheirinho de uma bebê de 5 meses. Que não existe nada mais divertido do que a companhia de um garoto esperto de 5 anos.
Mas sim, filho, existe vida longe das fraldas.
Posso falar por mim e espero que você e sua irmã, um dia, entendam.
Mesmo sendo o maior dilema das mães de hoje (das mães dos seus amiguinhos também) não somos menos mães se admitimos que trabalhar fora é prazeroso.
E não estamos menos presentes em casa por isso. Eu não estive.
Nos últimos 5 anos voltei para casa para almoçar com você.
Cheguei cedo sempre que pude para brincar com você.
Te levei ou busquei na escola quase todos os dias.
Sempre li um, dois ou três livros para você antes de dormir.
Contei muitas histórias, ouvi dezenas de outras.
Não fui uma mamãe tempo integral mas fui uma mamãe completa em todo tempo que estivemos juntos.
Vamos começar tudo de novo agora com a sua irmãzinha.
Se ela chorar, filho, fala para ela que a mamãe volta, tá?
E, sempre que eu não estiver em casa, cuida dela por mim.

Um beijo,
Mamãe.

Cartas ao Tom - janeiro 2012


Querida mamãe,


Eu tenho uma resolução de Ano Novo:
Este ano, em vez de escrever para o Papai Noel, eu quero escrever uma cartinha para o Papai do Céu.
Nela, eu pediria algumas coisinhas:
- Que as semanas tenham mais sábados e mais domingos do que segundas;
- Que eu treine bastante e melhore no futebol;
- Que eu continue na sala dos meus amigos na escola e que todo dia seja dia de trazer um deles em casa;
- Que os chocolates nasçam em árvores, menos os amargos;
- Que a minha irmã Estela cresça logo para brincar comigo.
- Que a hora do almoço seja invertida e que eu possa sempre começar pela sobremesa (um prato grande de banana com aveia e mel ou um bolo de chocolate) e, depois, só depois, comer um pouco de macarrão com azeite e queijo ralado;
- Que todo dia antes de dormir você ou o papai possam ler no mínimo 8 histórias;
- Que o Papai do Céu proteja todas as pessoas que existem no mundo, menos os piratas e os ladrões;
- Que eu nunca encontre um “oligonígena”;
- Que eu não veja mais crianças sem casa e sem mamãe e papai nas ruas;
- Que todo mundo goste de brincar e nunca de brigar;
- Que eu me torne um escultor ou cantor ou diretor de teatro do Rei leão;
Ah, já ia me esquecendo, eu também diria para o Papai do Céu: obrigado.
Um beijo,
Tom.

Nota da autora: que você aprenda a escrever este ano, meu querido Tom, porque a mamãe está doida para realmente receber uma carta sua.

Cartas ao Tom - dezembro 2011



Querido filho Tom,


Quantos livros você quer ler hoje de noite?
A pergunta é sempre sucedida de uma negociação: “7! Não, filho, 7 é muito! Amanhã você tem escola… Tá, mamãe, então 4…”
Fico feliz que você goste tanto de livros, filho. Desde bebê. Antes, os livros que habitavam o baldinho azul no pé da sua cama eram quase mini-binquedos, na verdade. Tinham texturas, abriam várias vezes, encaixavam partes, faziam barulhos. Eram livros que aguçavam o tato e a audição.
E ajudavam você a desenvolver um vocabulário maior do que baba, bola, aba.
Agora são outros os sentidos que os seus livros aguçam: a curiosidade, a imaginação.
Os dois livros do momento são livros de um amigo, o Lolo: “Super Empty” (a história de um super herói bem diferente) e Quem Soltou o Pum? (não, não é o que você está pensando, Pum é um cachorrinho chamado Pum, hahaha)
Voltando ao assunto… todo dia você pede para ler os mesmos livros, filho.
E dá risada exatamente nas mesmas partes.
E pede para que eu repita a mesma entonação na hora da leitura. E ri mais ainda.
Acho que a repetição, aos 5 anos, é o que ajuda você na compreensão da história. Porque, embora você conheça todos os trechos a ponto de me corrigir se leio algo errado, você sempre tem uma pergunta diferente à respeito do livro (ou algo que o livro tenha te lembrado) que você nunca tinha feito antes.
E muitas vezes, te pego repetindo, frases inteiras dos livros que a gente lê quando você brinca de faz de conta com seus bonecos.
Sua vontade de ler sozinho, com seus próprios olhos, também está aumentando.
Você já conhece as letras.
E outro dia você contou para o seu pai que o ponto de exclamação numa frase indicava que alguém estava falando aquela frase gritando.
Menino Maluquinho e Marcelo, Martelo, Marmelo também tiveram seus dias de glória aqui em casa.
E, eu, desde que você nasceu, digo que vou escrever a história de um menininho chamado Tom que usou órtese para consertar o pezinho quando nasceu e por isso virou um grande herói do skate e do snowboard.
5 anos já se passaram e até hoje ainda não escrevi.
Mas, pensando bem, essas cartas são uma maneira de escrever essa história, filho, só que em doses pequenas, em parcelas iguais, todo mês, do jeito que você gosta.

Um beijo,
Mamãe.

Cartas ao Tom - novembro 2011



Querido filho Tom,


Quando essa revista estiver nas bancas, sua irmãzinha Estela completará 1 mês.
Um grande feito para ela e uma mudança ainda maior na sua vida, né, filho?
Estela chegou no dia 8 de outubro e já foi fazendo você dividir o quarto, o armário, a babá, a vovó, a mamãe e o papai.
Sem nem te conhecer direito, ela chegou pedindo silêncio aos seus dinossauros.
Você ficou genuinamente feliz, eu sei, mas também teve febre, dor de ouvido, dor de garganta e quase quebrou o nariz.
Os amigos, pais há mais tempo de 2 ou mais filhos, dizem categóricos “é ciúmes”.
Claro que há a flecha preta do ciúme, como diria Caetano, mas eu acredito que há mais dúvida e incerteza aí do que realmente ciúmes…
Você ainda não sabe como é legal ter uma irmã.
Estela vai ser a princesa das suas histórias, vai imitar suas brincadeiras, te defender, ser a sua cúmplice, sua fiel escudeira.
Vai seguir seus passos mesmo antes de começar a andar.
Vai te olhar com olhos apaixonados e admirados de quem tem o garoto mais bacana da rua como irmão mais velho.
E você vai ensinar para ela a diferença entre Brachiossauro e Mamechissauro, vai cantar para ela “Hey Jude”, vai ter eternamente ajuda para construir tesouros, robôs e castelos de sucata, vai contar os segredos que só você sabe sobre como convencer mamãe e papai a fazerem exatamente o que vocês querem.
Ter um irmão, filho, é dividir um futuro.
Vocês vão brigar, claro, (seu tio Marcelo que o diga) mas espero que vocês, além de irmãos, sejam amigos, realmente amigos, mas isso, mamãe e papai só podem esperar e torcer para que aconteça, porque amizade não é algo definido pelo sobrenome.
Estela hoje chora, mama e dorme. Mas a mamãe não vê a hora de vê-la passeando com você de um lado para outro na carona de um cavalo-marinho ou um foguete rápido e brilhante.
Até lá, filho, pode ter certeza de que pelo menos uma coisa você não vai precisar dividir de jeito nenhum: esse espaço aqui é só seu e ponto final.

Um beijo,
Mamãe.

Cartas ao Tom - outubro 2011



Querido filho Tom,


Muitas vezes me pego refletindo sobre as divagações que você faz no alto dos seus 5 anos:
“Mamãe por que o tio Marcelo e a tia Mariana não se casam e têm um filho se eles já se encontraram e já se apaixonaram?”
Colocado dessa forma parece tão simples a decisão de casar e ter um filho. Por outro lado, você está certo, Tom, por que não haveria de ser simples quando o mais difícil já aconteceu que é existir o encontro por amor?
“Mamãe, a Nina e a Lalá querem casar comigo, aí, eu fiz uni-duni-tê, ganhou a Nina.”
Nós adultos é que complicamos tudo, ok, essa afirmação também parece simplista e certamente não estaria certa sob a ótica de uma criança.
O fato é que vocês, crianças, têm muito a nos ensinar com o jeito de avaliar os problemas. Quando um adulto analisa um fato o que avaliamos é mais do que o fato em si. Levamos em consideração o que as pessoas à nossa volta achariam sobre o fato, se estamos cumprindo regras pré-estabelecidas ou desafiando-as, enfim, nosso julgamento nunca é isento de fatores externos ao que a gente realmente sente.
Vocês, crianças, são mais honestas, mais diretas-ao-ponto. Vocês dizem na cara do amigo se gostam deles ou não. Se acham que eles são ruins no futebol ou não, se eles podem ir brincar em casa ou não. Assim, na lata.
Isso também pode machucar o amigo. E você, por mais que ainda não saiba nomear o que sente, já fica magoado quando vê que, sem querer, entristeceu alguém.
Isso é crescer, filho, e eu não me iludo, você está crescendo rápido.
Hoje você me diz “adolescente não é adulto, mamãe, adolescente é só uma criança grande.”
Que assim seja, filho.
Que você conserve essa sua pureza de raciocínio, sua curiosidade e entusiasmo de criança, mesmo quando um dia você gritar “mamãe” com a voz mais grossa e pelos no peito.

Um beijo,
Mamãe.

Cartas ao Tom - setembro 2011

Querido filho Tom,

Não dá para te pedir calma quando você deseja muito que a sua irmã Estela nasça logo. 
Não dá para te pedir calma quando é o dia seguinte da sua festa de aniversário de 5 anos e você não entende bem o que significa ter que esperar um ano inteiro para ser seu aniversário de novo. 
Não dá para te pedir calma quando o sorvete está derretendo, sujando toda a sua roupa, mas sua boca ainda não é suficientemente grande para dar conta.
Não dá para te pedir calma quando o amigo entende que o seu abraço mais parece um apertão no pescoço, “mas era um abraço, mamãe”.
Quando a saudade da vovó não se consola pelo skype. Quando seu dinossauro preferido quebra a perna e não dá para colar.
Calma e paciência são palavrinhas amigas de adultos.
Sua existência de 5 anos, filho, não teve nada a ver com calma até agora. Tudo é novidade, tudo é intenso e é bom que seja assim.
A vida acontece tão rápido. Conserve seus olhinhos bem vivos e abertos. Cultive essa sua curiosidade, seus muitos por quês. Não amadureça isso.
Picasso disse que levou a vida inteira para pintar como uma criança. Acredito. Alguns insights só as crianças têm, pequenas sabedorias de vida.
Levamos você para o Rio de Janeiro e você disse que, em vez do Anjinho da Guarda, que você nunca viu, você agora ia rezar para o Cristo Redentor, que está ali, pertinho, na montanha.
Corram, adultos, não tenham calma. Sejam mais crianças.
Agora, Tom, fica aqui comigo, me dá mais um abraço, com calma, filho.

Um beijo, mamãe.

Cartas ao Tom - agosto 2011


Querido filho Tom,


Pede, por favor, para vovó ligar o skype que a mamãe quer falar com você.
Não sei se na sua vez de ser pai, filho, o teletransporte já será realidade mas o fato é que, hoje, usar o Skype quando a gente viaja para ligar para você toda hora (sempre com um wifi) é uma delícia.
Compartilhar fotos e acontecimentos em tempo real, então, nem se fala: “Olha como o Tom está vestido para a festa de São João”, “olha o que mamãe e papai estão fazendo agora”.
A saudade não diminui mas a culpa de estar fazendo uma viagem sem criança sim.
E isso já libera um peso extra em qualquer bagagem.
É tão curioso ver sua relação com a tecnologia, filho.
Computador lá em casa é sinônimo de muita coisa: joguinhos, fotos, filmes, desenhos antigos no youtube. Você já se acostumou, por exemplo, a usar o Skype para, de vez em quando, desenhar com o primo que mora na Nova Zelândia ou almoçar com a vovó em Salvador.
Mas o computador, ao mesmo tempo que aproxima, também atrapalha e mamãe pede desculpas por tantas vezes que já teve e, que certamente ainda vai ter, que trabalhar no fim de semana.
Um dia desses você falou: “mamãe, quando eu crescer, não quero ter computador. Perguntei: por que, filho?
Porque eu não quero trabalhar, eu quero é cantar!”
Opa, aí você esbarrou no meu passatempo preferido: imaginar o que você vai ser quando crescer.
São tantas as possibilidades, filho.
Nesse caso, por melhor que seja a tecnologia, eu e seu pai damos preferência aos estímulos mais analógicos do que os digitais.
As embalagens de suco, aveia e leite, por exemplo, são disputadas exaustivamente lá em casa. De um lado, eu, sempre tentando organizar o lixo reciclado, do outro, você, e suas esculturas de sucatas.
Agendas de brinde viram grandes cadernos de desenhos e até mesmo o álbum do Clube Penguim pode ser feito com papéis grampeados, recortes e cola. Muito melhor do que o comprado na banca.
Música está sempre presente (talvez por isso o seu desejo de cantar?)
E é muito bacana ver a evolução da sua compreensão de mundo.
De uns tempos para cá você passou a prestar atenção à letra das músicas do seu playlist de dormir. Quando você era bebê, ouvia os clássicos dos Stones, Beatles, Pink Floyd e outros, na versão pianinho, sem letra.
Hoje, quem te embala é o João Gilberto.
E é o João original mesmo, com o seu violão, suas letras, suas temáticas.
Um dia, diante de tamanha informação bem na hora que deveria ser um soninho tranquilo, você me pergunta:  “Mamãe, por que é que esse João Gilberto diz que cantando ele manda a tristeza embora? Ele precisa ficar triste para cantar?
Eu não.”
Eu também não, filho,  eu também canto quando estou feliz.

Um beijo, Mamãe.

Cartas ao Tom - julho 2011


Querido filho Tom,


Você vai ganhar uma irmãzinha.
Depois de quase 5 anos reinando sozinho você me pergunta, num misto de felicidade e dúvida: “o meu quarto não vai virar rosa e eu não vou ter que brincar de princesa, né, mamãe?”
Não, fica tranquilo, respondo.
Mas será que eu estou tranquila?
Será que estou sendo egoísta em me preocupar como é que eu vou reagir à esta mudança na dinâmica da casa?
A culpa será menor porque pelo menos um sempre terá o outro para brincar ou maior porque agora serão dois sem minha presença 100% do tempo?
Assim como os 9 meses de gravidez, terei que esperar pra ver.
Por enquanto, estamos todos curtindo a novidade: eu, você e o papai.
Você gosta de dar beijinhos na barriga, de ver que algumas roupas que eram suas serão da sua irmã agora, gosta de ver as fotos de quando eu estava grávida de você.
Até o momento não percebi nenhuma regressão.
E depois?
Já ouvi mil conselhos de como devo proceder com a chegada de um bebê na casa, mas a verdade é que uma história nunca é igual a outra, não é mesmo?
Instintivamente acho que as grandes mudanças (nova cama, novo lugar no armário para as roupas, etc) precisam ser feitas antes da sua irmã chegar para que você tenha o seu período de adaptação com calma, sem pressa.
Você está cada dia mais independente, mais carismático, mais cheio de amigos e de novos interesses.
Sua cabecinha de 4 anos e 10 meses parece mais lúcida do que a de muito adulto por aí.
Na tentativa de incluir você nos preparativos, eu e seu pai mostramos as fotos do último ultrassom. Com a sua sinceridade típica de criança sem freios sociais você me respondeu que ela parecia muito pequena e estranha.
Dias depois, na hora do boa noite, você disse que me amava e que já amava a sua irmã. Ao que eu respondi que ela também já gostava de você.
Que ingênua que eu fui.
Na lata, você falou: “Como, mamãe? Ela nem me conhece?”
“Você também não conhece ela, filho!”
“Conheço sim, mamãe, já vi a foto!”
Quem pode disfarçar a verdade diante de tamanha compreensão do mundo?
Esse é o meu melhor conselho até agora.
Falar a verdade, de um jeito lúdico, sempre que der, porém, sempre a verdade.
É, querido, você vai ter uma irmãzinha.
E ela vai nascer da minha barriga, do mesmo jeitinho que você nasceu.
Cegonhas só trazem bebês cegonha, bebês gente nascem da barriga de gente mesmo.
Vamos esperar pra ver.

Um beijo, Mamãe.

Cartas ao Tom - junho 2011


Querido filho Tom,


Sinceramente, mamãe cansou de pedir para você comer.
Tá certo que eu também nunca fui uma criança que comia muito, mas você não come nada, filho. Argh!
Muitas mães passam por isso, eu sei.
Dei um google hoje no assunto “crianças que não querem comer” e apareceram 74.500 resultados, veja só!
Com essa minha carta aqui (na versão online da revista) serão 74.501 links disponíveis sobre o tema.
E se é tão comum, por que é que a gente se desespera tanto?
Com 4 anos de idade você usa o prato de comida como arma de controle e poder.
E que poder!
Mas a greve de fome não é usada só por crianças.
Tem sempre algum motivo pelo qual o ser humano quer chamar a atenção.
E as formas de se fazer isso são as mais variadas.
Um dia, quem sabe, você pode inventar que não quer mais estudar ou pode aparecer em casa vestido de um jeito estranho ou até mesmo dizer que adora um amigo que é visivelmente uma má companhia.
É o mesmo que dizer que detesta cenoura!
E o que nos resta fazer?
Apontar que você está fazendo isso só para chamar a atenção?
Ameaçar cortar a sobremesa ou algo assim?
Se isso não dá certo hoje em dia, com 4 anos, imagino como vai ser no futuro.
Como vou reagir a cada atitude sua? Ainda não sei a resposta, filho.
Ser mãe deve ser que nem frequentar um grupo de AA: um dia após o outro.
Mas acredito que o exemplo é o melhor ensinamento que podemos te deixar.
Mamãe e papai gostam de uma boa comida, filho.
Minha esperança é que, um dia, você também aprenda a se interessar pelo momento da refeição. Uma viagem ao Piemonte (na época das trufas, hummm) poderia até acelerar esse processo (risos), mas por enquanto vamos à feira, ali mesmo, na esquina.
E mamãe vai tentar cozinhar um bolo junto com você.
Ok, vai, bolo é difícil, mas moqueca mamãe sabe fazer.
E, aos poucos, minha esperança é que você descubra que uma boa mesa atrai uma boa conversa, um bom carinho, mais tempo juntos.
Mas, por enquanto, refeições sem pressa parece o desejo apenas de adultos.
Afinal, por que demorar na mesa, se brincar é mais legal?
Como é que um Tiranossauro Rex pode competir com um brócolis? Injusto.
Existe consolo?
Sim. Também dei um google em “crianças que adoram comer”.
E aparecerem 1.550.000 resultados.
Uma ótima notícia. Principalmente porque você tem uma mãe que sempre olha para o lado mais cheio do copo, filho.

Um beijo, mamãe.

Cartas ao Tom - maio 2011



Querido filho Tom,


Um dos seus amigos da escola vai morar fora e você vai ter que aprender a dizer adeus. Tá certo que um dia, quem sabe, a gente pode ir visitá-lo, mas não vai ser como ir em Alphaville e voltar, filho.
Despedidas fazem parte da nossa vida.
Você, desde pequeno, aprendeu a se despedir da mamãe e do papai que saem para trabalhar e sempre voltam.
Aprendeu a se despedir para ficar algumas horas sozinho na escola seguro de que, depois da aula, a gente irá te buscar.
Um dia você se despediu do berço, da chupeta, da mamadeira. Felizmente sem dramas. Ufa.
Mas se despedir do amigo é difícil nessa idade, né?
A noção do tempo para você ainda é exageradamente mais longa ou mais curta do que o tempo real.
O que fazer então?
Eu e outras mães dos seus colegas conversamos sobre isso.
Preparar uma quarentena, como se faz em algumas religiões, pareceu o mais adequado.
Assim, vocês, meninos grandes de 4 anos, poderiam se preparar para o tão esperado tchau.
Estou completamente de acordo, filho.
O melhor a fazer (em todas as despedidas, na minha opinião) é dizer a verdade.
Do mesmo jeito que mamãe nunca saiu de casa escondido para ir trabalhar, mamãe tem que te dizer que: sim, seu amigo vai morar em outro país, ele não irá mais à mesma escola que você todos os dias, e você não vai mais poder ir de vez em quando na casa dele.
Claro que você pode ficar triste, e pode fazer um desenho e uma colagem pra ele.
Ele vai gostar, vai se sentir querido.
E quando você quiser, filho, mamãe escreve uma carta (tá, um email) para ele, basta me dizer o que devo escrever.
Mas olha lá aquela palavrinha de novo: sem dramas, filho.
As distâncias , hoje em dia, estão como a noção do tempo para você: às vezes exageradamente mais curtas do que imaginamos.

E, como na vida, para cada desencontro, a gente também pode ter um encontro, neste fim de semana você conheceu uma menina que pode vir a ser um grande nova amiga.
E ela tem 10 anos!
Você precisava ver os seus olhinhos brilhando para me contar a idade dela.
Engraçada, boa de bola, boa no surf, ela deixou você boquiaberto.
Era tanta felicidade que você nem lembrava de procurar o carrinho de picolé, seu programa de praia favorito.
Eu comentei que tinha gostado dela e você me disse que ela é legal mas que não queria namorar com ela.
Engoli seco, claro, quem estava falando em namorar?
Bom, filho, acho que isso já é assunto para mais uma longa carta.
Tchau, querido.

Um beijo, Mamãe.

Cartas ao Tom - abril 2011


Querido filho Tom,


Estou orgulhosa que você aprendeu a ter a figura do “melhor amigo”.
Parcerias fazem a gente chegar mais longe na vida.
Sem amigos, filho, tudo fica mais sem graça desde a brincadeira de dinossauros até o dia-a-dia estressante do trabalho.
Ok, alguém vai me dizer que pai e mãe também serão seus amigos, mas não me iludo, filho, sei que é diferente hoje e vai ser diferente sempre.
Por mais que eu queira, não vai ser pra mim que você vai ligar quando quiser contar que pegou aquela gata da escola. Nem seu pai será o primeiro a saber da sua intenção de formar uma banda, um time de futebol ou o seu próximo destino de viagem. (Talvez você conte pra ele da banda)
Nem agora, filho, aos 4 anos e meio, eu sou a primeira a saber o que tanto você pediu para as fitinhas do senhor do Bonfim amarradas ao seu punho. Seu amigo Chico soube primeiro do que eu que um dos seus pedidos é virar Homem-Aranha quando você tiver 5, 6 ou 10 anos.
Ter amigo é bom, ter melhor amigo, melhor ainda.
É para o melhor amigo que a gente cochicha as primeiras confidências.
Que a gente arma os primeiros planos.
Que a gente fala mal dos pais. Ôpa, eu estou na categoria de pai e mãe agora. Será que você já anda falando mal de mim?
É ou será inevitável, né? Eu sei.
De um ser de dentro da minha barriga, você passou à algo colado à minha pele quase 24 horas por dia, à uma pessoinha que agora se acha independente e já quer dormir sozinho na casa dos primos e dos amigos.
“Mamãe, quero ir sem você e sem babá, tá?”
Tá, mas vou ficar por perto, filho.
Hoje e por mais alguns (muitos) anos.
“Quero fazer tudo igual a meu amigo” é um frase que com 4 anos o perigo é não querer comer legumes, mas com 14, o modelo do amigo pode ser um pouco mais perigoso, dependendo do amigo, então, o que se há de fazer?
Olhar de perto.
Prestar atenção nas diferenças.
Ajudar você a construir suas próprias conclusões ou, pelo menos, ficar do seu lado no momento de um ou outra decepção.
Por enquanto, filho, você imita as frases dos DVDs que assiste.
E como você mesmo diz “Vida longa ao meu amigo!”.

Um beijo, Mamãe.

Cartas ao Tom - março 2011


Querido filho Tom,


É no filho dos outros que eu percebo como você está grande.
As aulas começaram e, com elas, o recreio constante dos meninos da escola que te acompanham desde que ainda faltavam 22 dias para você completar 2 anos.
Estão todos mais altos, fisicamente mais confiantes, falantes.
E, como se eles fossem um espelho seu, filho, eu te enxergo mais independente. E tenho orgulho disso.
As despedidas dolorosas acabaram.
A chupeta, de um ou de outro, há tempos, foi esquecida.
Você não chora mais dizendo que prefere ficar em casa.
E os primeiros pedidos para dormir sozinho na casa do amigo começam a aparecer.
E agora? Será que eu vou piscar os olhos e terei um adolescente colecionando espinhas na minha frente?
Será que o receio de você ir sozinho na piscina não pode demorar um pouco mais para se transformar no receio de você sair sozinho e ponto?
Uma volta às aulas com data próxima à do aniversário da mãe é complicado.
O sentimento que o tempo está passando aumenta.
Você já me corrige quando leio algum páragrafo errado dos seus livros preferidos na hora de dormir.
Já não tem mais medo do livro do tubarão que come o pirata.
E já me faz perguntas que nascem sem respostas como aquele dia em que você me acordou com ar de preocupado e disse: “mamãe, todo mundo que morre, antes de morrer fala - adeus, mundo cruel?-”
Os assuntos vão ficar mais cabeludos daqui para frente.
E eu, que sempre fui a boa aluna da classe, me sinto atrasada na matéria e preciso estudar um pouco mais senão chegam os exames e me sentirei despreparada, filho.
Ou será que existe alguma maneira de ter sempre um manual embaixo do braço para tirar aquelas dúvidas de última hora que aparecem?

Ok, agora deixa eu entrar na internet e encomendar a fantasia de Homem Aranha ou de Pirata para o carnaval enquanto eu ainda posso fazer isso.

Um beijo, Mamãe.

Cartas ao Tom - fevereiro 2011


Querido filho Tom,


Borboleta, não. A mamãe vai fazer uma máscara de leão para você.
Eu sei que é um preconceito da minha parte.
A palavra é bem significativa, aliás. É um pré-conceito mesmo.
Sei que você tem só 4 anos e o desejo de se fantasiar de borboleta não vem com nenhuma carga emocional.
Mas, fazer o quê?
Desde bebê tento não repetir o clichê do quarto azul para meninos (seu quarto é colorido).
Vestir roupas azuis o tempo todo (sua cor preferida é amarelo).
Quero deixar você à vontade para fazer suas escolhas sem ficar exposto todo o tempo à estereótipos.
Mas daí a eu me sentir confortável se você for fantasiado de borboleta na festa da escola já é um pouco demais.
É exigir muita modernidade da minha parte.
Dar repertório para uma criança é uma tarefa muito difícil.
Não há como ser imparcial 100% das vezes.
As opiniões são tendenciosas, de um jeito ou de outro.
E o exemplo em casa acaba sendo, sempre, a maior verdade de todas.
E, sem que eu tenha me dado conta, eu olho para você e me vejo nas suas atitudes.
Você gosta de flores, orquídeas, sabe nomear gérberas e lírios tanto quanto conhece o Velociraptor e o Tiranossauro Rex.
Qualquer semelhança comigo é mera coincidência? Não, não é.
Do seu pai, aprendeu o gosto pela música, escolhe as faixas, cantarola, acompanha, como pode, com a sua gaita.
Conhece Beatles, Rolling Stone, Kiss e, felizmente, não faz a menor idéia de quem é o Tchutchucão.
Vejo alguns colegas da sua idade que gostam de brincar de luta.
Você prefere que os bichos, na sua brincadeira, sejam amigos.
Até tentamos mudar um pouco isso, compramos uma espada, e você até me pediu um Homem Aranha de presente mas “sem inimigo, mamãe, por favor”.
Cada criança tem um modelo em casa, na escola, no clube, na academia e é bom que seja assim.
Assim criamos meninos diferentes com personalidades diferentes.
E, no fundo, filho, o que todo pai e toda mãe quer é que vocês sejam felizes. Responsáveis por suas próprias escolhas.
Ok, quando você crescer, tá?
Porque hoje, com 4 anos, eu ainda te ajudo, (“influencio mesmo”) nas suas decisões.
E olhe que legal essa máscara de leão, filho.

Um beijo, Mamãe.

Cartas ao Tom - janeiro 2011


Querido filho Tom,


Como é mesmo que faz para esse gato falar?
Onde aperta para dar o leitinho?
Você sabe mais sobre esses jogos do I-Pad do que eu, Tom.
Aliás, é impressionante a sua facilidade para lidar com essa nova tecnologia.
Você fica entretido por minutos e minutos sem intervalos.
(As mesas do lado nos restaurantes agradecem)
Corujices à parte, vai ser interessante notar como a sua geração vai evoluir.
Vocês serão adolescentes mais espertos, muito mais conectados, literalmente mais antenados com o que acontece no mundo.
Ou tudo isso vai ajudar vocês a serem menos egocentrados.
Ou vai acontecer o contrário: a sensação de serem o centro do mundo será exacerbada com o poder de postar algo e receber comentários e aprovações em esfera mundial.
Por mais que eu me esforce e gaste horas da minha terapia falando de você e não de mim não há muito o que eu possa fazer resguardar você desse novo mundo.
Tá tudo aí.
Tudo parece touchscreen.
Mas lembre, filho, nem tudo o que a gente toca vira ouro.
Midas também erra.
Aprender a lidar com as frustações é importante.
Saber perder no futebol, ouvir que a escultura de massinha não está tão bonita dessa vez, receber uma nota baixa de vez em quando é doloroso para o adulto que assume esse papel mas é fundamental para você.
É difícil perceber qual a hora certa em que o apoio é importante para formar o sentimento de segurança na personalidade de uma criança ou a reprovação é importante para formar a couraça que nos protege das frustações.
Seria tão mais fácil nascer com os espinhos dos estegossauros nas costas, não?
Ou ter 3 chifres na cabeça, como os Tricerátopes, que se sentem corajosos para enfrentar até mesmo o perigoso T-Rex.
Mas você não nasceu dinossauro, nem jacaré, nem cavaleiro medieval…
Então, vamos à construção dessa couraça, filho.
Eu te ajudarei no que for preciso.
Amanhã, ok?
Hoje mamãe tem que dizer que o seu desenho está lindo!


Um beijo, Andrea.

Cartas ao Tom - dezembro 2010


Querido filho Tom,


Quem tem medo do lobo mau?
Você tem, filho, eu sei.
E quer saber a verdade? Eu também tenho.
Tenho medo de pessoas que podem ser mais malvadas do que certos lobos, tenho medo do trânsito, de perder você numa estação de metrô lotada, de não comer, de comer demais, de não ter por perto as pessoas que eu amo, de não olhar para os lados antes de atravessar, de não conversar na mesa.
Este, por sinal, é um dos maiores medos da mamãe: não te encontrar nas refeições para conversar.
Não vou ficar aqui falando o óbvio:  ter pouco tempo para os filhos é, hoje em dia, o grande bicho-papão da vida moderna.
E cada família encontra a sua própria maneira de resolver isso.
Na nossa casa tentamos sempre conciliar o inconciliável: você, minha vida, meu trabalho, o papai, fazer ginástica, supermercado, unha, depilação, ufa.
Mas aí chegam as férias e oba!
Pela primeira vez trouxemos você numa viagem internacional com a gente.
E NY para crianças é o máximo.
Você viu os dinossauros no Museu de História Natural, as múmias no Metropolitan, a bailarina de Degas que você já tinha visto nos livros.
Viu os pinguins de Madagascar no Zoo do Central Park, aguentou ficar acordado durante todo o espetáculo do Rei Leão e aprendeu a fazer esculturas no Children Museum of the Arts.
E depois de uma semana intensa (que coincidiu com a maratona de NY, não, não é um trocadilho) você esqueceu do Lobo Mau.
Você parou de acordar no meio da noite e nem fala mais dele.
Porque, na verdade, filho, o Lobo Mau sempre vai existir.
E serão vários lobos daqui até a sua vida adulta.
Mas, no momento, o grande Lobo Mau que te assustava toda a noite era ficar menos tempo com a gente do que você gostaria.
E isso a gente resolveu nessa viagem sem nenhum pó de pirlimpimpim.
E que a gente viva feliz para sempre.

Um beijo, Mamãe.

Cartas ao Tom - novembro 2010


Querido filho Tom,


Achei lindo o “oninho” que você fez de barro.
E, por favor, ninguém se atreva a corrijir a grafia da palavra “oninho”.
Oninho é ninho, fastiado é fantasiado e Plósul é o Pólo Sul.
Não são apenas palavras, são praticamente objetos, têm cheiro, como aquele seu travesseiro que a mamãe tem que levar sempre que a gente viaja.
“Oninho” é quase um portal para o bebê que ainda existe (lá atrás, escondido) dentro de você. E quero preservá-lo assim enquanto der ou, pelo menos, até alguma professora do primeiro ano aparecer.
Claro que alguns “miletones”, como os livros de pedagogia falam, são significativos para o desenvolvimento de uma criança: pular de um pé só, tirar a fralda, reconhecer as letras, saber contar de 1 a 10, a 20, a 100.
Mas nada se compara àquelas conquistas muito muito muito pessoais que só eu, você e papai sabemos quais são. Porque fazem parte da sua história. De mais ninguém.
Como no dia em que você se deu conta de quem realmente era a sua família e me pediu para desligar o Barney, lembra?
(nota da remetente: para quem não sabe, Barney é aquele dinossauro roxo que tem uma canção-tema que diz assim “eu amo você, você me ama, somos uma família feliz.”)
Eu perguntei “Desligar o Barney? Por que, filho?”
Você me respondeu na lata: “Ué, mamãe, porque eu não amo o Barney e eu não sou da família dele.”
Tem muito adulto por aí, filho, que deve ter atingido outros “milestones” na vida e talvez não tenha se atentado ao fato de que ele não é da família do Barney.
E quando você me pediu um irmão ou irmã.
Eu respondi: “Tá, vou chamar a cegonha.”
Ops, veio a resposta: “Não, mãe, cegonha é bicho e eu quero um irmão gente, que nem eu.”
Ou quando estávamos lendo uma história de tatus e havia um tatu que gostava muito de música e que dizia “Eu nasci para tocar”.
Sua colocação, naquele momento, me tirou preciosas horas de sono por dias e dias seguidos: “E você, mamãe, nasceu pra quê?”
Pois é, pensei, eu nasci para quê?
4 e 36 anos se confundem e eu já nem sei mais quem está aprendendo com quem.
Quer saber, filho?
Você pode estar certo. Ninho um dia pode virar oninho mesmo.
Até porque, no tempo em que eu tinha 4, ideia ainda era idéia.

Um beijo, mamãe.

Cartas ao Tom - Outubro 2010


Querido filho Tom,

Daqui a 2 dias você completa 4 anos.
Seria mais um aniversário inesquecível de Dinoussauros, Bichos da Fazenda, Carros ou Batman se não fosse o grande marco na sua história que é fazer 4 anos!
Você nasceu com a Síndrome do Pé Torto, filho.
E quando completar exatos 4 anos, a primeira grande etapa da sua vida estará cumprida.
Descobrimos essa síndrome quando você ainda estava na minha barriga.
Parecia apenas um problema de postura, o útero deve ser um lugar meio apertadinho mesmo.
Quando você nasceu, a suspeita se confirmou e o seu pé direito nasceu viradinho, como um pequeno taco de golfe.
Corremos para a web e achamos a Dra Mônica Paschoal Nogueira.
Ela é ortopedista e uma das poucas experts no Brasil da técnica de tratamento da Síndrome do Pé Torto sem cirurgias, seguindo o método do Dr Ponsetti. Estudamos o assunto, aprendemos com ela, começamos o tratamento.
Uma religião, praticamente.
No início, você trocou de gesso 4 vezes e usou apenas o pé esquerdo dos sapatinhos de nenê.
Com 2 meses começou a usar a órtese, uma espécie de bota em formato de pranchinha de snowboard, que você usa até hoje pra dormir.
Você deixou de lado a chupeta, já não dorme mais no berço, não acorda mais à noite, não usa mais fralda, mas até hoje não sabe o que é dormir à noite sem a sua botinha.
4 anos parecia muito tempo lá atrás.
Agora faltam só 2 dias.
Eu sempre disse que escreveria um livro contando a história de um garotinho que dormia de bota e que, quando crescesse, se transformaria em um grande skatista, surfista ou snowboarder.
4 anos se passaram e ainda não escrevi essa história, filho.
Mas você escreveu.
E até já aprendeu a assinar o seu nome.

Um beijo,
Mamãe.

Cartas ao Tom - o convite em setembro de 2010

"Cartas ao Tom" surgiu de uma imensa necessidade de colocar toda essa maternidade para fora de alguma maneira. Aliado à isso, veio o convite da editora Mônica Figueiredo - de quem sempre fui fã - para escrever uma coluna na revista Pais e Filhos.
Assim nasceu "Cartas ao Tom".
As cartas são para o meu filho Tom.
Mas, quem sabe, elas não podem servir à você também.
Seja bem-vindo.